Esta é minha casa! Como podes observar, tem uma placa “EM CONSTRUÇÃO”. Há muito tempo está assim! Não costumo fazer exigências. Peço apenas que retire as sandálias dos seus pés, pois minha casa é um lugar sagrado e tem um Dono antes de mim.
Se você não se importar e quiser entrar, seja BEM-VINDO!
Talvez as coisas não estejam no lugar onde deveriam e talvez a decoração não lhe agrade, mas é meu lugar. Gosto assim! Sou assim!
Algumas vezes mudei a disposição dos móveis, troquei a tinta das paredes... Por vezes derrubei paredes construídas em lugares errados, por outras, construí muros, não muitos, mas sabendo o que eu estava deixando de fora.
Algumas vezes foi necessário ventilar e iluminar minha casa, daí abri janelas. Precisei também de portas, e ainda preciso... E como são necessárias! Geralmente deixo-as abertas! Não é necessário assaltar, pular pelo teto, arrombar uma janela, pois a porta estará aberta. Aos cômodos mais íntimos da minha casa só têm acesso pessoas que souberam e que sabem entrar. Alguns, por desrespeito ao meu lugar, ao que sou, foram convidados a se retirar. Quem sabe, um dia não possam entrar novamente, mas do jeito correto...
A beleza de minha casa vem da decoração de minha história. Confesso que há objetos de valor, mas há bijuterias e bugigangas também. Há marcas que ainda não consegui reparar, reformas pendentes, janelas quebradas, portas emperradas, rachaduras e infiltrações. Todavia, não deixa de ser um abrigo para mim e para quem por perto passar. Às vezes acho que seja parecida com a casa do meu do meu bisavô, um casarão simples onde os viajantes sempre encontravam uma varanda para descansar e beber um copo d’água e prosear um pouco antes de prosseguir viagem.
Geralmente os que chegam à minha casa sempre deixam alguma coisa. Algumas vezes deixam objetos lindos e valiosíssimos, outros, simples lembranças de imenso valor emocional e outros, com olhar crítico, trazem às claras defeitos que meu olho já se acostumara. Infelizmente já sofri alguns furtos... E o que mais me dói é não saber o que fazer diante de quem me roubou: não sei se corro atrás do ladrão para recuperar o que é meu, ou se deixo o pobre infeliz em paz com a desculpa de que talvez ele precise daquele objeto mais do que eu. O que fica nesse caso? O aprendizado! Não são todos que sabem entrar num recinto sagrado...
Minha casa não é luxuosa, nem grande, nem está localizada em área nobre da cidade. Aliás, as pessoas mais interessantes que conheço não se localizam em áreas nobres como semideuses, mas nas margens, sedentas de amor, conhecimento, sentido na vida. Essas pessoas, pela experiência da sede, sabem saciar-se e saciar aos muitos que não têm coragem de se aproximar da margem do rio. Foi por isso que construí minha casa às margens de um rio fecundo e de águas caudalosas, o qual gosto de chamá-lo Rio de Água Viva. E que local movimentado! Nunca faltam histórias interessantes para escutar e existem tantas casas semelhantes à minha! Estou em constante aprendizado e sem falar que não corro o risco de morrer de sede, pois o Dono do terreno me disse um dia: “Aquele que beber dessa água jamais terá sede”.
Minha casa ainda desfruta de uma vista linda! Ela olha para o Céu. Confesso que às vezes me dá um desânimo ao perceber que muito precisa ser feito para que meu lar se torne um local mais agradável. No entanto, quando o desânimo chega, vou à varanda e observo a vista. Nesse instante lembro que o Dono do terreno alimenta os pássaros e veste os lírios dos campos. Por que não cuidaria de mim? Ele sempre fala de um tesouro que nem a traça nem a ferrugem o consomem. Isso aquieta meu coração...
Este é meu lugar! Se quiseres ficar, prepararei uma refeição e poderemos conversar! Quem sabe, de mãos dadas caminharemos e talvez você me ajude em alguma reforma? Quem sabe você deixe algo que traga mais beleza à minha estante? Quem sabe sejamos vizinhos e eu possa plantar uma rosa em seu quintal?
Ouvi dizer que nesse terreno sempre há lugar para mais uma morada. Não é preciso dinheiro, coisas em troca, é preciso apenas querer! Além disso, o Dono do terreno adora preparar banquetes e convida a todos a comerem de um Pão que alimenta a alma.
Onde encontrá-Lo? Fique tranqüilo! É só chamar...
Clara Mítia (Sobral, 03/04/10)
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