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| Tom adorava tirar minha atenção do computador |
E olha que quando a gente é criança, tudo é filho: boneca, gato, cachorro, periquito e minhoca...
Lembro que uma vez eu e meu irmão adotamos uma lagarta chamada Cadáver. Criamos uma rata de laboratório, a Blossom; fomos pais do Cadu I, II, do Maik (cachorro), do Maik (bezerro), da Mel e do Mingau. Tivemos vários Louros e um amor mais do que especial pelo Benje, nosso labrador. Acolhemos na nossa casa um boxer da boca torta que tinha o hábito horroroso de comer cocô. Tadinho do Bruce!
O Tom foi uma aposta que fiz com meu pai: "Se o senhor não conseguir matar o rato em 1 semana, podemos adotar um gatinho?"... O rato que nos incomodava fazia mais malabarismos que palhaço de circo e meu pai cedeu à tentação. Primeiro anunciei no face: UM GATINHO, PELO AMOR DE DEUS! Uma amiga, atendendo ao meu desespero, chamou-me para ver a ninhada da gata da casa de seu pai. Eram todos malhadinhos de amarelo, todos ariscos demais. Nenhum parava no meu colo, com excessão de um. Foi com muita alegria que voltei pra casa com meu gatinho em uma sacola de presentes do Boticário.
E dá-lhe "brincar de boneca": coleira, ração pra filhote, caixinha de areia, fotos daqui, fotos dali. Desde a primeira noite ele sabia que a casa era dele. Nada de miados. Dormia juntinho ao estabilizador do computador. Era minha companhia nas noites estudando durante o Mestrado. Quanto ao rato? Sumiu na primeira semana.
Pois bem. Por ocasião do destino tive que castrá-lo, o que aconteceu diante de condições muito peculiares. Um testículo ele mostrou, outro escondeu. Queria manter o último sinal de masculinidade estampada. Pensando bem ele nunca se rendeu à castração. Continuou a vida noturna livremente.
Quando adulto de vez, Tom tornou-se estranho. Sumia, voltava, sumia, voltava de novo. Pior ainda era quando eu viajava. Ninguém dava definição do Tom! Era como me matar do coração! E quando vim pra Ubajara foi que ele desistiu de vez. Deixou as paredes do meu quarto com suas patinhas carimbadas por suas rotas de fuga e por sua felicidade extrema quando saltitava dizendo: "Aqui mora gente feliz!".
O engraçado é que sei que não precisamos mais um do outro. É como um filho que cresceu e prefere falar a linguagem de quem o entende de verdade.
Mais engraçado ainda é que ele desaparece a semana toda, mas quando desço a serra, uma das primeiras coisas que escuto é o miado do Tom me desejando boas vindas. Meus pais dizem que ele virou gato de rua, que fica caçando os pombos que moram em cima da casa.
Eu ainda não sei. Só sei que quando chego em casa, ele se aproxima de mim como nos velhos tempos e finge ser meu filhote.
Finge tão bem que acabo acreditando...
Clara Mítia (Ubajara, 28 de outubro de 2013. Talvez a sabedoria da vida esteja no deixar ir...)


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