quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Gesso, por favor!
Há exatamente 21 anos, meu aniversário começava diferente.
Braço quebrado, gesso e a culpa corroendo meus ossos mais do que a dor de não poder estar brincando como os outros.
Minha primeira tentativa frustrada de fazer algo diferente na minha vida, rendeu-me meio mundo de consequências e o medo de tentar ficou guardado na caixinha de brinquedos do quarto escuro.
Era semana do Dia das Crianças.
Era recreio o tempo todo.
Lembro-me do pátio lotado de crianças como eu, o medo de vomitar na roda, as pernas machucadas de tanto descerem no escorregador enferrujado, a cabeça dolorida de bater no ferro do cavalinho.
Mas havia um brinquedo que eu não havia experimentado, daqueles que parecem uma escada horizontal, onde vamos passando de mão em mão o peso do próprio corpo até chegarmos ao final. Relutei contra minha vontade, afinal me achava mais gordinha que a maioria das crianças.
Carregar o próprio peso é sempre complicado, especialmente quando se é criança e a noção de massa, medo e gravidade não estão muito bem discernidas no cerne da inteligência.
Mas era algo histórico e eu precisava comemorar!
Havia resistido ao primeiro ciclo de formação da personalidade!
Ainda brincava de boneca, fazia xixi na cama, mas não era tão, tão criança!
Estava perto da passagem dos 7 para os 8 anos.
Vamos brincar!
Subir já foi um desafio.
Sempre tive medo de altura, mas desde cedo aprendi que esse brinquedo era como a vida: não respeita nossos medos, a gente enfrenta com um braço de cada vez e tem que aprender a carregar o próprio peso até o final.
Talvez eu fosse muito criança para perceber isso, ou meu medo me paralisou bem no meio do percurso.
Não sei, não lembro.
Só sei que caí em cima do braço direito bem na semana do dia das crianças, no final da 1ª série, há 1 mês do meu aniversário de 8 anos.
Sem mais para os detalhes, dá-lhe meses de gesso, cirurgia e platina, viagens Sobral-Fortaleza com o braço inchado (tudo particular por que não tínhamos plano de saúde), aprender a escrever com o braço esquerdo pra não repetir de ano e meses de fisioterapia pra recuperar os movimentos.
Como às vezes o inconsciente não reconhece a passagem do tempo, pior do que a cicatriz que ficou foi admitir que fui uma péssima goleira até a 4ª série e levei muitas boladas na cara durante o "carimbo" nas aulas de Educação Física. Isso porque a imagem do braço quebrado ficava ali na minha frente lembrando-me do medo de arriscar mais uma vez...
Mas cá estou eu novamente!
Passando dos 28 para os 29.
Resisti a 4 ciclos de formação da personalidade.
Não sei se eu sou tão, tão adulta, pois vez ou outra apareço com uma parte do corpo quebrada..
A diferença é que hoje posso olhar pro brinquedo da vida e dizer: um dia eu te atravesso até o final!
Clara Mítia (Sobral, 16 de novembro de 2013. Há poucas horas dos 29: "GESSO, POR FAVOR!")
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