segunda-feira, 31 de março de 2014

Piano, piano


Os olhos já não são mais os mesmos
A boca também não
Não se sente como antes
Sente-se melhor!
Quem cabe no abraço?
Quem fica do lado de fora da cerca?
Salve o tempo,
As marcas,
Os recomeços
E suas partituras...

 
 

segunda-feira, 24 de março de 2014

Homem da Neve

No teu inverno eterno
Não encontrava palavra alguma que se fizesse sol
Parecia que que as tuas geografias perderam o viço da juventude
Era um velho no corpo de um menino,
Ou o menino tentando arrebentar a couraça antiga para nascer de novo?
Estava tudo congelado
Minha ingenuidade foi querer abrir caminhos que desapareciam
Não havia tréguas no rio cristalizado que caía do céu...

Prossegui.






quinta-feira, 20 de março de 2014

Passarinho

Chovia e fazia frio quando ele apareceu na minha varanda
Aparentando sentir medo
Era a primeira vez fora do ninho

Na alegria do primeiro voo
Não percebeu o vidro como limitação
Esbarrou na parede transparente, 
Bateu as asinhas e, cansado, perguntava o que estava errado
A vida e suas contradições

Tentei conversar: "Está perdido querido?"
Ele me ignorou olhando desconfiado
Eu disse: "Calma que vou te ajudar."
Aproximei-me com um pano macio e acarinhei a cabecinha
Coloquei-o em um lugar seguro onde fosse mais fácil achar o caminho pra casa
Despedi-me dizendo:
"Passou, passarinho! Passou!"

Clara Mítia (Tianguá, 20 de março de 2014)

Passou passarinho! Passou! Tianguá (março de 2014).


quarta-feira, 19 de março de 2014

As mãos do Carpinteiro


Quem entalha madeira não tem mãos apressadas
Respeitando, escuta dela o formato que tomará
Talha daqui, talha dali e, pacientemente, observa suas formas
Se vai tornar-se uma mesa, uma porta ou um sacrário, é
 a madeira quem vai dizer
É ele quem vai escutar

O Carpinteiro José não tinha pressa
Acredita-se que em suas mãos pacientes foram entregues um Sacrário e o maior Tesouro que visitou a humanidade
Na simplicidade da vida, uma surpresa
Sua Maria, que também era de Deus, ganhara outra forma
Não sei se era isso o que ele esperava, mas sabia ele que, a mesma madeira que ele entalhava, quando tocada pelo Divino, já não era mais madeira, mas era tão divina quanto Quem a tocou

Um Tesouro nas mãos do Carpinteiro
Sob seus cuidados, precisando do colo que ele também amava

Seria necessário alguém que o ensinasse a entalhar almas, a sarar as fissuras da madeira e do coração
Alguém que o ensinasse a tocar com devoção o solo que se tornou Santo depois que Deus decidiu visitar a Humanidade

Clara Mítia (Sobral, 19 de março de 2013. Dia de São José)




quarta-feira, 12 de março de 2014

Espero

Ah, esperança!
Nos desatinos dos meus dias, tu sempre vens pra me regar...


Projeto Cabra Nossa de Cada Dia em São Domingos, Sobral/CE (junho de 2013). Iniciativas assim me fazem ter esperança na humanidade. Homenagem fundador Pe. Joãozinho e aos coordenadores Jorge e Selma, pessoas queridas que carrego no coração.





terça-feira, 11 de março de 2014

Dona Maria Amália


Sempre gostei de encher a boca pra falar o nome dela: Maria Amália.
Tenho certeza de que o meu riso frouxo vem dessa senhora de pele negra e cabelos brancos.


Sentar-me ao lado de sua rede para ouvir suas histórias sempre foi um prazer muito meu.
Gosto do cheiro dela, do abraço, do aconchego e da calma de quem já viveu muito.
Gostoso também é saber que eu sempre coube em seu abraço!

 
Ela que ama dobrado!
Ama os netos que a visitam, ama ainda mais os quatro que ela criou.
E fala de cada um com orgulho e beija nossas cabeças forma especial, como se quisesse nos colar no peito para não mais sairmos de lá.

Pra cada filho, uma estrofe do Ofício de Nossa Senhora.
Pra cada neto, uma oração, um carinho, uma história pra contar.
Muitas histórias pra contar!


Clara Mítia (Tianguá, 11 de março de 2014. Dona Maria Amália!)

Ela fez questão se se arrumar no dia da minha formatura (agosto de 2009).


segunda-feira, 10 de março de 2014

Bem casado

Porque a felicidade é um docinho que a gente come sorrindo e rezando para não acabar.

Casamento da Vivi e do Bruno em Viçosa/CE (maio de 2013)

quinta-feira, 6 de março de 2014

Arvorear

É sagrado!
Não gosta do meu amigo? 

Não gosta de mim e pronto!

Feliz de quem entendende que quando a gente ama, a gente cria raízes no coração do outro.
Essas raízes entrelaçadas deve ser o que incomoda nos que não as possuem.

A gente arvoreia junto, a gente cresce junto, a gente bebe, às vezes, da mesma fonte!

Amo os meus amigos exatamente pelo excede neles e pelo que ainda falta.
Amo pelo mistério que nos torna almas tão parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes.
Amo sentir vontade daquela presença que, hora pode ser saciada, hora não.
Amo a capacidade de destruir velhos conceitos, e de, ao mesmo tempo, esperar-me do lado de fora do túmulo gritando: "Ressuscita!"
Amo meus amigos por lerem minhas entrelinhas, o que diz minhas histórias mal contadas, minha voz embargada, meu coração prestes a sair pela boca.
Amo quando devolvem meus sonhos e quando me dão novos pra sonhar!

Amo o desinteresse, a falta de cobranças como se fosse um velho sempre novo.
Amo poder ser eu mesma, sem máscaras. Confessar meus desejos secretos, minhas ânsias, meus medos mais tenebrosos...
 

Amo ter amigos. 
Poucos, mas o suficiente para permitir minha inconveniência de enraizar.
Na paciência para construir e dar sentido ao que ainda não tem.
Na ausência de nomes, pois a gente se reconhece... 

Sempre...

Clara Mítia (Sobral, 07 de fevereiro de 2013).



terça-feira, 4 de março de 2014

Coca-Cola

Riso frouxo e janela nos dentes.

Sabe aquela desculpa esfarrapada de que a gente briga mas a gente se ama?
Chega mais Coquinha!
Aqui em casa é bem verdade!
Com o título de minha abusada favorita, ainda estou pra conhecer alguém mais força na vida do que ela.
Desde que nasceu, aquele pingo de gente de 1,1 kg nunca parou no que disseram ao seu respeito. 

Ela desafiou a todos, até a bandida da morte!
Os pés que não a obedeciam, ela os submeteu!
A risada frouxa ela desenvolveu para marcar espaço.
A cara zangada também!

Mas só ri frouxo quem não tem medo do desafio de ser o que se é.
Só estica o sorriso quem não para na casca, quem sabe o que tem dentro do peito pra mostrar.

Ela sabe que é uma Coca-Cola!  
E eu concordo, minha Coquinha! 

Clara, sua abusada favorita! (Sobral, 11 de junho de 2013. Aniversário da Coquinha) 


Casa

Porque a felicidade e o amor moram na casa da simplicidade...





domingo, 2 de março de 2014

Amor inútil (Parte II)

Tão "simpático"! (Março de 2014)

Ele não ficou no lugar do Tom.
Ele tem um espaço só dele na casa, no alto da minha estante de livros, no tapete do banheiro, no meu coração.

 
O que ele ainda não tem é um nome.
Dos quatro meses que está aqui Xanim, Tanim, Bichano ou Totó, nenhum nome nele se firma.
Eu não me importo.
Acho que ele tem cara de Agnaldo, por que é inconveniente sempre.


Chego de viagem, ele está dormindo entre os meus livros favoritos, o lugar que tenho mais ciúmes na casa inteira.
Ele brinca de esconde-esconde onde guardo as sandálias mais caras, embaixo dos travesseiros de quem tem rinite e atrás da tela do meu computador.
Para isso escolhe os piores horários do dia. Exatamente quando o cansaço é quase invencível, ele está lá, desafiando todo e qualquer comando de obediência.
Ele come meus cactus, dorme em cima das mudas recém plantadas e mastiga minhas samambaias.
Ele adora dormir no tapete limpo do banheiro após a faxina.
Ele gosta de escalar as pernas das visitas nos matando de orgulho ou vergonha. Depende do humor do dia.
 

Eu reclamo, ele mia.
Eu pergunto alguma coisa, ele mia.
Eu mostro a lua, ele mia também.
A gente gosta de conversar.
 

Se eu chamo: "Agnaaaaaaaaldo!" Ele não atende.
Mas se eu chamo: "Xaaaaniiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim!"
Lá vem!

Clara Mítia (Sobral, 02 de março de 2014. Rinite atacada. Motivo? Agnaldo!)



Do alto

Senta aqui!
Guardei o teu lugar...

Na minha Serra da Ibiapaba, Sítio do Bosco (Tianguá/CE, julho de 2007).



sábado, 1 de março de 2014

O pouso da borboleta

Eu disse: "Voa!"
Ela decidiu ficar.


Parque Nacional de Foz do Iguaçu/PR (agosto de 2012). 
À borboleta que me seguiu em uma das paisagens mais emocionantes da minha vida.


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