quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Pose

Uma poesia é uma fotografia no tempo e no espaço.
Mas o que é o tempo?
 O que é o espaço?
Mais uma vez, a relatividade...

Dançando


"...Contratempo
Contratempo
Contratempo
Tempo
Tempo
Contratempo..."

"O que você está fazendo?"

"Dançando!"

"Qual melodia?"

"A vida! Não está escutando?
...Contratempo
Contratempo
Contratempo
Tempo
Tempo
Contratempo..."

Clara Mítia (Ubajara, 17 de outubro de 2013. Há 1 mês dos 29!)


Gesso, por favor!


Há exatamente 21 anos, meu aniversário começava diferente.
Braço quebrado, gesso e a culpa corroendo meus ossos mais do que a dor de não poder estar brincando como os outros.
Minha primeira tentativa frustrada de fazer algo diferente na minha vida, rendeu-me meio mundo de consequências e o medo de tentar ficou guardado na caixinha de brinquedos do quarto escuro.

Era semana do Dia das Crianças.
Era recreio o tempo todo.
Lembro-me do pátio lotado de crianças como eu, o medo de vomitar na roda, as pernas machucadas de tanto descerem no escorregador enferrujado, a cabeça dolorida de bater no ferro do cavalinho.
Mas havia um brinquedo que eu não havia experimentado, daqueles que parecem uma escada horizontal, onde vamos passando de mão em mão o peso do próprio corpo até chegarmos ao final. Relutei contra minha vontade, afinal me achava mais gordinha que a maioria das crianças.
Carregar o próprio peso é sempre complicado, especialmente quando se é criança e a noção de massa, medo e gravidade não estão muito bem discernidas no cerne da inteligência.

Mas era algo histórico e eu precisava comemorar!
Havia resistido ao primeiro ciclo de formação da personalidade!
Ainda brincava de boneca, fazia xixi na cama, mas não era tão, tão criança!
Estava perto da passagem dos 7 para os 8 anos.
Vamos brincar!

Subir já foi um desafio.
Sempre tive medo de altura, mas desde cedo aprendi que esse brinquedo era como a vida: não respeita nossos medos, a gente enfrenta com um braço de cada vez e tem que aprender a carregar o próprio peso até o final.
Talvez eu fosse muito criança para perceber isso, ou meu medo me paralisou bem no meio do percurso.
Não sei, não lembro.
Só sei que caí em cima do braço direito bem na semana do dia das crianças, no final da 1ª série, há 1 mês do meu aniversário de 8 anos.
Sem mais para os detalhes, dá-lhe meses de gesso, cirurgia e platina, viagens Sobral-Fortaleza com o braço inchado (tudo particular por que não tínhamos plano de saúde), aprender a escrever com o braço esquerdo pra não repetir de ano e meses de fisioterapia pra recuperar os movimentos.
Como às vezes o inconsciente não reconhece a passagem do tempo, pior do que a cicatriz que ficou foi admitir que fui uma péssima goleira até a 4ª série e levei muitas boladas na cara durante o "carimbo" nas aulas de Educação Física. Isso porque a imagem do braço quebrado ficava ali na minha frente lembrando-me do medo de arriscar mais uma vez...

Mas cá estou eu novamente!
Passando dos 28 para os 29.
Resisti a 4 ciclos de formação da personalidade.
Não sei se eu sou tão, tão adulta, pois vez ou outra apareço com uma parte do corpo quebrada..
A diferença é que hoje posso olhar pro brinquedo da vida e dizer: um dia eu te atravesso até o final!

Clara Mítia (Sobral, 16 de novembro de 2013. Há poucas horas dos 29: "GESSO, POR FAVOR!")



quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

As estações da vida e os ciclos de encerramento

Sejam elas estações,
Estação das flores, estiagem, tempo de colher os frutos, o frio do recolhimento.
Tudo na natureza segue uma ordem sutil de dar, receber e recolher-se.

Penso que a vida também funciona nesse ritmo.
Para seguir adiante, permita que os ciclos se encerrem.
Viva a chegada,a demora, a partida,
Sejam elas contra a nossa vontade ou não.
Não adianta prender em casa quem quer ir...
E pra que ainda insistir em colher o fruto que não amadureceu?

Quando for para mudar, mude também a cor do gloss, o cheiro do perfume e a marca do hidratante.
Compre um par de brincos novos, experimente uma estampa diferente e ganhe mais uma música favorita!

Não encerrar os ciclos significa permanecer em uma redoma infértil, em uma espiral daquelas de ilusão de ótica.
Aonde chega?
A lugar nenhum.

Certas coisas pertencem aos corajosos...


Clara Mítia (Ubajara, 21 de novembro de 2013. Em ciclos, sempre!)



Exupéry, como você explica isso?

O amor é uma raposa...
E não igual à do Pequeno Príncipe não!


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Oração do dia

Que a tecnologia das redes sociais não nos roube a capacidade de olhar nos olhos enquanto se divide a mesma mesa, a cama, o café.
Que a presença do ser humano seja mais interessante que os milhares de contatos e aplicativos piscando na tela touch,
AMÉM!





Aos que perguntam pelo Tom...

Tom adorava tirar minha atenção do computador
Tom foi o filho mais lindo que eu já tive nesta vida!
E olha que quando a gente é criança, tudo é filho: boneca, gato, cachorro, periquito e minhoca... 

Lembro que uma vez eu e meu irmão adotamos uma lagarta chamada Cadáver. Criamos uma rata de laboratório, a Blossom; fomos pais do Cadu I, II, do Maik (cachorro), do Maik (bezerro), da Mel e do Mingau. Tivemos vários Louros e um amor mais do que especial pelo Benje, nosso labrador. Acolhemos na nossa casa um boxer da boca torta que tinha o hábito horroroso de comer cocô. Tadinho do Bruce!

O Tom foi uma aposta que fiz com meu pai: "Se o senhor não conseguir matar o rato em 1 semana, podemos adotar um gatinho?"... O rato que nos incomodava fazia mais malabarismos que palhaço de circo e meu pai cedeu à tentação. Primeiro anunciei no face: UM GATINHO, PELO AMOR DE DEUS! Uma amiga, atendendo ao meu desespero, chamou-me para ver a ninhada da gata da casa de seu pai. Eram todos malhadinhos de amarelo, todos ariscos demais. Nenhum parava no meu colo, com excessão de um. Foi com muita alegria que voltei pra casa com meu gatinho em uma sacola de presentes do Boticário.

E dá-lhe "brincar de boneca": coleira, ração pra filhote, caixinha de areia, fotos daqui, fotos dali. Desde a primeira noite ele sabia que a casa era dele. Nada de miados. Dormia juntinho ao estabilizador do computador. Era minha companhia nas noites estudando durante o Mestrado. Quanto ao rato? Sumiu na primeira semana.

Pois bem. Por ocasião do destino tive que castrá-lo, o que aconteceu diante de condições muito peculiares. Um testículo ele mostrou, outro escondeu. Queria manter o último sinal de masculinidade estampada. Pensando bem ele nunca se rendeu à castração. Continuou a vida noturna livremente.

Quando adulto de vez, Tom tornou-se estranho. Sumia, voltava, sumia, voltava de novo. Pior ainda era quando eu viajava. Ninguém dava definição do Tom! Era como me matar do coração! E quando vim pra Ubajara foi que ele desistiu de vez. Deixou as paredes do meu quarto com suas patinhas carimbadas por suas rotas de fuga e por sua felicidade extrema quando saltitava dizendo: "Aqui mora gente feliz!".

O engraçado é que sei que não precisamos mais um do outro. É como um filho que cresceu e prefere falar a linguagem de quem o entende de verdade.

Mais engraçado ainda é que ele desaparece a semana toda, mas quando desço a serra, uma das primeiras coisas que escuto é o miado do Tom me desejando boas vindas. Meus pais dizem que ele virou gato de rua, que fica caçando os pombos que moram em cima da casa.

Eu ainda não sei. Só sei que quando chego em casa, ele se aproxima de mim como nos velhos tempos e finge ser meu filhote.

Finge tão bem que acabo acreditando...


Clara Mítia (Ubajara, 28 de outubro de 2013. Talvez a sabedoria da vida esteja no deixar ir...)



domingo, 26 de janeiro de 2014

Lonjuras

Gosto de desafiar lonjuras.
Vez por outra jogo na cara delas:
"Vocês são tão relativas!"



Pausa para uma declaração de amor

Minha história de amor começa assim... 
Nos 2 anos e meio de idas e vindas, São Paulo pensava que eu não a amava e eu pensava também.

E minhas lembranças iniciam com o avião preparando-se para aterrissar em Congonhas. Ora vinha a sensação dos edifícios estarem perto demais, ora a lembrança do acidente com o airbus da TAM.
Quando eu chegava, sempre chegava o frio e minhas constantes reclamações.
E dá-lhe não conseguir dormir sem aquecer os pés debaixo do edredon, e aquele festival de livros e fones de ouvido e pessoas cochilando no horário de pico.
Já confundi fumaça com neblina em fim de tarde, recebi 50 reais falso na bilheteria do metrô e me assustei ao ver um garoto preparando cigarros de maconha ao meu lado no ônibus às 9 da manhã.

E era o trânsito, o engarrafamento, a 1h e 45 minutos que eu levava pra ir e vir da casa pra universidade e vice-versa.
Com o tempo esse percurso melhorou após a construção da estação Butantã!
Uma coisa que São Paulo não sabe é que às vezes eu negava esse trajeto e saía da USP pro metrô Vila Madalena só pra parar um pouco na estação Sumaré. Eu gostava de ver aqueles vidros com rostos tão paulistas estampados.

Meu coração era da Avenida Paulista, meu lugar favorito em Sampa! Do Paraíso à Consolação, ou da Consolação ao Paraíso, dependendo do meu humor no dia. Eu adorava sentar em um daqueles bistrôs, pedir um café e ficar observando a multidão que passava... E ninguém comenta que a melhor pizza e o melhor sushi que já comi foram em São Paulo. Também não vou negar que a pizza paulista só perde pra nossa Maria Bonita, com queijo coalho e carne-do-sol!

Um segredo revelado é que dancei mais forró na Terra da Garoa do que no Nordeste de Luiz Gonzaga. Nunca fui tão nordestina na minha vida como eu fui lá. Mas uma das minhas maiores alegrias veio quando, um dia, minha tia me teceu o seguinte elogio: "Nega, você tá paulista, paulista!".
Ufa! Passei no teste!

Fiz tantos amigos! É a saudade de gente de toda parte do Brasil e do mundo que me dá a alegria de estar viva! E como é bom deixar um pouquinho de si e trazer um pouco do outro, olhar o diferente sem medo, culpa ou necessidade neurótica de transformação.

Obrigada minha São Paulo!

Você agora acredita na minha declaração de amor no dia do seu aniversário?
Você acredita que, se eu pudesse, seria sua vizinha só pra me sentir um pouquinho paulista novamente?

Parabéns Terrinha!
Envio da Terra da Luz, 460 mil beijos para tudo e todos que eu amo na Terra da Garoa!

Clara Mítia (Sobral, 25 de janeiro de 2014. Aniversário de 460 anos da Terrinha da Garoa)



São Paulo vista do alto (Prédio do Banespa - o ponto mais alto da cidade), outubro de 2011. 



Advento e esperas

Um preparo para uma chegada

Quem espera a quem se ama, apronta-se!
É a mesa que deve estar posta
Junto com o perfume que já deveria estar entranhado na pele

Há quem espere infinitamente os próximos Natais
Há quem já morreu na sexta da Paixão e não mais ressuscitou
Há quem veja a estrada à sua frente e, covarde, decida não caminhar
Há quem faça denúncias inférteis como quem semeia ervas sem fruto
Alguma serventia?

A quem espero, espero que chegue e fique!
Adiar minha arrumação?
Longe de mim uma espera engessada!

Foi para isso que há muito tempo levantei e decidi seguir caminho
Não mais me assusto com os monstros pelas tocaias
Eles têm medo das flores que trago nas mãos...

Clara Mítia (Sobral, 02 de dezembro de 2013. Primeira semana do Advento)






Domingo

Não prendo Deus nas liturgias
Quando termina a missa eu sempre O convido para brincar no meu quintal
Corre daqui, corre dali
 "Não repara a bagunça, Deus-Menino! Quer entrar para comer?" 

E hoje é Domingo! 
Sentamos na mesa um do outro...




O gato, a água, a cobra e outros medos

Para mim nada é mais confortante do que o descanso frente à fonte do Centro de Convenções após minha hora de exercícios quase diários.
Dias minha atenção migra para o som da cachoeira improvisada, em outros é a lua que desponta no horizonte ou a estrela acima da minha cabeça.
Hoje o alvo de minha atenção foi um casal e sua filha de pouco mais de dois anos.
Estava o casal sentado e a garotinha brincava perto dos pais enquanto eu observava no banco ao lado.
Quem conhece a região sabe esta é visitada por bichanos de vários tipos e dessa vez fomos visitados por um branco com amarelo.
"Olha o gatiiiiiiiiiiinho", gritou a menina e pôs-se a brincar de esconde-esconde. Geralmente bicho entende a linguagem das crianças.
A mãe, sem levantar-se do banco, disse: "O gato vai lhe morder, filha!". E falou uma, duas, três... vezes.
O gato, intuindo a má impressão aparente, deitou-se em cima das patinhas e fitou a menina com aquela cara de quem não estava entendendo nada (só quem tem gato sabe o que estou dizendo, quando ele nos olha colocando as orelhas para trás).
A criança continuou apontando e pulando e gritando: "Gatinho, mamãe! Gatiiiiiinho!".
A mãe continuava: "Ele vai te morder! Cuidado!", e o gato permanecia com as orelhas para trás como descrevi.
Insatisfeita, a mãe ainda dizia: "Não vai pra grama! Aí tem cobra, filha! Cuidado! Você vai cair na água!".
E falou novamente uma, duas, três...
Daí chegou a hora de ir embora e o gatinho permaneceu deitado ao aceno da garota.

Fiquei pensando com quantos medos aquela criança foi bombardeada naquele pequeno intervalo de cinco minutos.
Olhei para trás e vi que o casal estava quase entrando no carro.
Olhei pro gatinho e fiz aquele gesto comum: "Vem bichano!"
E ele veio, fez um carinho na minha mão e eu fiquei torcendo para a menininha olhar para trás e ver que o gatinho não mordia, que não havia cobra, e que ela não ia cair na água...

Clara Mítia (Sobral, 13 de janeiro de 2014. Talvez pensando no final da história...)






O caminho do rio

Eu quero TUDO!
Estou dispensando a facilidade das METADES...
Metades são margens.
É preciso coragem de abraçar a totalidade do rio que corre pro mar.

Corre rio, corre!
Na tua história está impresso o destino da tua chegada.
Não te assustes com teus trechos selvagens.
Lá na frente eles se tornam calmaria.
Mostra tua força nas cachoeiras e quedas d'água!
Oferece tua vida no represamento de parte de tuas águas.
Não queiras ser sempre largo!
Estreita um pouco teu espaço para permitir que o traseunte conheça a outra margem.

A dignidade do rio que corre casa com a sacralidade do coração que tem coragem.
Corre meu rio, corre!

Ainda quero TUDO! Não quero NADA pela metade...

Clara Mítia (Sobral, 09 de julho de 2013. Corre meu rio, corre! Escolhe o TUDO! Não deixe que tuas águas fiquem estagnadas nas metades...)




Contemplação

Meu corpo se alimenta de movimento
Minha alma, de silêncio
Meu coração, da comunhão entre essas duas verdades...

O feminino caminha no fogo e no dar à luz
O verbo que se faz carne é gerado na ausência de ruídos
Nada perturba, nada espanta
Uma taça de cada vez

Corre tu meu rio fecundo...

Clara Mítia (Ubajara, 22 de outubro de 2013)





A morte do Alecrim


Meu Pé de Alecrim morreu.
O motivo?
Cuidados demais...

Alecrim é planta que gosta de desprezo.

Acho que meu olhar vaidoso sobre ele todos os dias, somado às regas constantes com medo do Sol fizeram meu Alecrim protestar: "Também preciso de solidão!".

Só fui escutá-lo depois que estava quase morrendo.
Tarde demais...

Tentei transplantá-lo trocando por areia o excesso de adubo.
É um arbusto! Gosta de solo pobre e eu não sabia.
Eu não compreendia como é que tanto perfume sairia de solo tão sem nutrientes!

É a dinâmica da vida entremeada pelas possibilidades...
Pequei pelos excessos.
A cada um a dose certa de amor...

Ainda tentei retirando os galhos secos, reduzindo as regas e conversando com ele todos os dias pra ver se fazia as pazes comigo, mas minha hortinha ficou sem o perfume marcante do arbustinho enjoado que eu queria tanto bem.

Sigo então aprendendo...

Hoje acordei com um Hortelã reclamando!
Suas raízes agressivas não tinham mais espaço para se alargar.
Muito aroma, muito sabor, mais espaço!
Tive que transplantá-lo...
Morre não, Hortelã, viu?

Clara Mítia (Sobral, 11 de julho de 2013. Sobre minha hortinha de temperos e pessoas temperamentais)




Coração

Meu coração é poliglota...
Tem horas que ele fala e eu não entendo nada...



Divagações

Que os meus pensamentos sejam apenas como roupas no varal...




Todas Evas

Veio um dia o Criador e não nos modelou do barro, não nos soprou das narinas, não nos convidou a nomear a Criação.
Preferiu Ele nos retirar das costelas, imprimindo em nós o segredo da Vida juntamente com seus prazeres e encantos.

Retirou-nos das costelas, mas todos os dias pequenos Adãos saem dos ventres de Evas e, quando adultos, aprendem a retornar, sedentos de amor. É alegria do gerar, do parir e do ver partir. A mulher quando ama, enraíza e ver partir a quem se ama é como arrancar um pedaço de sua própria carne.

Colocou em nosso olhar um mistério. Vivemos buscando por entre as árvores do Paraíso, o ser a quem amar. Todos os dias, corremos o risco de esbarrar com a serpente e, como ela, sermos seduzidas a arrastar o ventre no chão, sujando de barro e terra o sacrário que a Vida escolheu por esconderijo.

Foste Tu Criador, o responsável por fazer essa Vida latejar em todas as curvas de nosso corpo, no formato dos seios e lábios, no choro mensal derramado em púrpura e emoções. Nossas emoções vêm em ciclos, em fases e rodopiamos pela vida como em uma dança de salão. Nada mais queremos a não ser quem nos ofereça a alegria do "Quer dançar comigo?"

Mesmo emancipadas, fazemos questão de depender dos braços fortes de Adão. Sabemos que nosso corpo para ele foi criado e o que nos assusta é estremecer diante do cheiro, do barulho dos passos, do formato das costelas de onde fomos retiradas. É como se algo nos chamasse a ficar para sempre ali, agarrada ao calor e ao aconchego de seus braços...

Criaste-nos capazes de nos despir diante de quem se ama, e ao mesmo tempo capazes de cobrir todo o nosso corpo em hábitos, oferecendo toda explosão de vida a quem prometeu desposar a Alma.

Mesmo sem amamentar, também oferecemos nossos colos ao órfão, ao mendigo, ao moribundo, a quem chora.

Nas noites profundas da humanidade, foste Tu Criador que nos colocaste no céu como um satélite sempre presente em fases. Ora cheia, ora crescente, ora minguante mas sempre Nova...

"Toma para ti Adão! É osso dos teus ossos, carne de tua carne! Ela se chamará Mulher, Eva, a portadora da Vida. Todos os dias tu exclamarás 'Ave', deslumbrado com seus encantos."

Clara Mítia (Sobral, 08 de março de 2013. Dia da Mulher)




E se ela vem...

Saudade chega com ruído que vem para atrapalhar meu sono.
Chega trazendo a lembrança de um cheiro, de um gosto, de um tom.
Ela simplesmente se estampa nos mapas que teimam em se manter distantes, e caminha de um lado para o outro, fazendo-me recordar da paz inquieta de passos conhecidos.
 

Saudade, por vezes, vem junto à música que toca no rádio.
Remete à lembrança de quem nela se deleita.
Ela se escreve nas entrelinhas, nos entreolhares, na mesa posta.
Lembra-me da síndrome de abstenção do aconchego, do abraço, do timbre da voz,
lembra-me até dos desatinos, dos incômodos pertinentes àquela presença tão necessária.


Ê saudade! Se tu vens, não sei se te abraço ou te mando embora.
Não sei se te mato ou bebo contigo o vinho da existência.
Só sei que no meio da noite, se tu vens me fazer companhia, não há como te deixar passar…

Clara Mítia (São Paulo 05/10/2012)






Em minhas divagações

Em um lugar onde todos tem pressa, eu tento me demorar. 
Tento me demorar no sorriso de uma criança, na flor que desabrocha, no olhar de quem cruza com o meu. 
Tento me demorar em mim, em minhas dúvidas, em meus sonhos e assim me devolvo, me relembro, me refaço…
É a lua que desponta no horizonte e lembro que meus amores também a contemplam na Terra da Luz. 

É a constelação de Órion que teima em vencer o céu turvado pela poluição, e lembro que sinto falta do Cruzeiro do Sul tão vistoso da minha janela, lá em casa…
Eu vou seguindo e tentando fazer poesia com as luzes da Paulista. 

Dos sons do metrô tento tirar uma melodia a cada dia e com os encontros e desencontros vou juntando acordes e acordando para o que a vida tem pra me mostrar. 
São as minhas mãos que tocam o mesmo lugar de tantas outras mãos. 
É suor e lágrima, e eu pergunto para onde vamos…
E o Sol vem me dar bom dia na Terra da Garoa, aquecendo minha alma morena que tem cheiro de praia e sertão. 

Vou ganhando jogo de cintura ao lidar com a saudade, com a vontade de voltar para o ninho… 
Vou abrindo os braços e peço à vida que me tire pra dançar. 
E a vida vai me conduzindo, vai dando forma aos meus passos outrora vacilantes e vou enxergando o quanto sou capaz. 
Vou tocando minha própria melodia e dançando em meu próprio ritmo. 
Vou dando nome aos sentimentos anônimos, casa aos sonhos desabrigados e de repente tudo fica calmo, claro, em seu lugar…

Clara Mítia (São Paulo 30/08/2012)






O que me ressuscita?

A inspiração de um poema do meio da noite.
A leitura incontrolável de um bom livro, desejando intervalos de tempo no meu dia.
Cheiro de fruta fresca na feira e boca com sabor de pastel ao final.
Uma mensagem, uma ligação em horários inconvenientes. E quem disse que o amor é sempre conveniente?
Café com leite quentinho, pão e queijo coalho de manhã.
Amigos que me visitam como um raio de sol.
O olhar profundo e o sorriso sincero de uma criança me distraindo no meio do trânsito.
A música favorita no meio das liturgias.
O aroma desprendido pela terra quando a chuva toca o chão.
O perfume que relembra a quem se ama.
Vento no rosto quando pego a estrada.
O contratempo na dança, a entrega na condução.
O silêncio da semente plantada e eu aprendendo a esperar.
O sabor da minha terra em um prato de cuscuz com leite e carne do sol.
...

Ressurreições são processos de devoluções e eu me devolvo toda vez em que permito que minha vida seja cheia de inspirações!

Clara Mítia (Sobral, 24 de fevereiro de 2013)




É só saudade...

Felizes são os que sentem saudade!
Saudade não é lembrança, é vontade dar a casa da eternidade o que ainda depende do tempo e das lonjuras.
Só sente saudade quem foi retirado da multidão, quem permitiu que uma rosa faceira brotasse em seu jardim. Havia tantas rosas iguais àquela! Foi preciso caminhar um pouco mais para descobrir que aquela era a sua rosa, única no mundo...
Só sente saudade quem quis um carneiro e foi atrás. Quem sentiu medo do carneiro tão sonhado devorar a rosa em uma noite desatenta, mas mesmo assim arriscou! Cuidou da rosa e do carneiro. Dedicou-se a dois amores, dando a cada um o seu cuidado...
Só sente saudade quem encontrou uma raposa pelo caminho. Quem gostaria que ela caminhasse ao lado sempre, dando novos significados a campos de trigo e rosas inúteis. Amigos nos fazem enxergar o outro lado da margem, mas às vezes é necessário prosseguir viagem...
Saudade é um risco dos que amam e felizes os que amam!
Felizes os que sentem saudades...

Clara Mítia (Sobral, 30 de janeiro de 2013. Dia da Saudade)







"Meu véio" e a Ivete

Sinceramente estou adorando a nova fase do meu pai.
Aposentado, sem a sorveteria pra dar dor de cabeça, os 3 rebentos muito bem na vida, obrigado!

Semana passada, show da Ivete em Sobral. Eu nem cogitei a possibilidade de não ir com a minha mãe.
Meu pai sempre dizia NÃO a esses programas de "gente desocupada". Dessa vez foi diferente. Ou melhor, desde o reveillon vem sendo diferente. "Pai, vou pro show do Alceu. Vamos?". Meu véio nos acompanhou até o final e saiu todo feliz depois Da Belle de Jour. A surpresa veio no show da gostosa de pernas grossas.

Engraçado: eu e minha mãe nos arrumando para ver a Ivete. Em outros tempos, meu véio ficaria emburrado, como aconteceu quando fiz questão de realizar o sonho de minha mãe levando-a ao show do Calypso. Foram 2 dias de zanga e cara emburrada só por causa da Joelma. "Não vou deixar vocês irem sozinhas!", disse ele dessa vez. Respondi: "Então se arrume logo que vai começar cedo!". Fomos a pé. Por sorte era pertinho de casa.

Meu pai nunca gostou de som alto, empurra-empurra, festança. O contrário de todos aqui em casa. No show da Ivetão meu pai parecia ter uns 20 anos. Vencemos a multidão pra ficar o mais próximo possível do palco. Detalhe: insistência dele, porque queria ver o palco. Se abria um espaço à nossa frente, meu véio era o primeiro a avançar. E abraçava minha mãe pra protegê-la dos empurra-empurra e cumprimentava os amigos que a gente ia encontrado pelo caminho. "Seu Alberto, o senhor por aqui?", perguntavam. Eu sabia porque ele estava lá.

Ivete entrou no palco e ganhou meu pai com aquele monte de beleza, talento e simpatia. E cantava e contava piada e ele ria de TU-DO. Eu sabia porque ele estava lá. Uma hora ela pergunta: "Eu tô bonita?". Todo mundo (inclusive meu véio): "Táaaaaaaaaa!". Ela: "Eu tô gostosa?". Pergunto: "Ela tá gostosa, pai?". Ele sorrindo: "Ela é uma grande artista!". Eu sabia porque ele estava lá.

Desde que saímos do show até hoje o assunto dos nossos almoços é a Ivete. Ele parece rejuvenescer quando relembra!
O engraçado é que pouco tempo atrás meu pai era o primeiro a desligar o nosso som enquanto fazíamos faxina sábado a tarde. Hoje, a pedidos dele, toca o CD da Ivete.

Eu sabia porque ele estava lá.

Durante nosso almoço de hoje, tocou no rádio um sucesso dela. Meu pai foi o primeiro a cantarolar entre uma garfada e outra.
Disse: "Legal, né pai?".
Ele: "Sempre fui fã da Ivete. Eu é que nunca contei pra vocês!".

Eu sabia pai! Sabia porque você estava lá!...

Clara Mítia (Sobral, 26 de janeiro de 2013. Ouvindo Ivete com meu pai.)






Ter um amor de 4 patas é:


* Castrar e não observar o desaparecimento dos hábitos noturnos.
* Todo mês comprar uma coleira nova e vê-las se perderem após as noitadas. #Desisto
* Nunca poder contar com a presença dele quando chegam as visitas.
* Chegar de viagem morrendo de saudade e só dar conta da presença felina no dia seguinte, às 5 da manhã. Detalhe: faminto e miando descontroladamente.
* Estar pronta para brincar e ele te ignorar.
* Estar de vestido de festa e ele tentar te escalar.
* Ter a calça jeans favorita desfiada num carinho matinal.
* Ter alguém pulando em seu colo, pedindo atenção, justamente quando você está concentrada no computador.
* Acordar sentindo aconchego nas costas.
* Dormir ouvindo os miados obscenos em cima da casa.
* Não se importar com a crise de rinite atacada após cheirar inúmeras vezes o pelo perfumado com shampoo de filhote.
* Adorar as paredes e o coração carimbados pelas patinhas nas rotas de fuga.
* Permitir que a felicidade me dê bom dia roçando nas minhas pernas e tocando meu rosto num focinho molhado...


Clara Mítia (Sobral, 26 de janeiro de 2013, dia de banhar o Tom)





 

Reflexões sobre a Teoria da Relatividade


Sempre fui amante das aulas de Física.
Desde cedo aprendi do valor do tempo, do espaço e da relatividade.
Perguntava o professor: "Este corpo está em repouso ou em movimento?"
Aprendemos a responder: "É relativo, professor! Depende do observador!"
E dessa forma, é relativo tudo o que depende do tempo e do espaço.
Energia é relativa. Depende do tempo e do espaço.
Matéria é energia condensada. Depende do tempo e do espaço.
Luz é energia radiante que, no vácuo, viaja a 300.000 km/s. Depende, portanto, do tempo e do espaço.
O ser humano também é relativo. Enquadra-se no senhorio do tempo e sofre as lonjuras do espaço.
E Deus? Podemos enquadrar o Senhor do tempo, Habitante dos espaços na Relatividade?
Concluí portanto que Deus não é relativo.
Ele é o Senhor do Tempo. Ele habita todos os Espaços.
Nosso olhar para ele, um ponto no tempo e no espaço, é relativo.
O olhar Dele para nós, não!
A nós, a Teoria da Relatividade.
A Ele, a Verdade que analisa todos os pontos no tempo e no espaço...

Clara Mítia (Sobral, inspirações na madrugada do dia 23 de janeiro de 2013)




Eu e as palavras

Hoje minha mãe disse: "Clara, você deveria ser colunista do Diário do Nordeste. Desde pequena gostou de escrever. Sabia que existe essa profissão?"

Bem, ainda não pretendo ser colunista, mas minha aventura com as palavras começou na 3ª série quando fiz a primeira poesia para o meu cachorrinho Maik. Poesia de 3 estrofes com 4 versos cada. Havia esquecido de fazer a lição de casa. Estava triste porque na mesma semana meu pai nos fez doar nosso primeiro cachorrinho. De carteira em carteira, Tia Rogéria tinha mania de verificar quem havia feito a lição. Sorte a minha! Eu estava no meio da sala. Ainda havia tempo e a tarefa era 'simples': escreva uma poesia. Naquela hora, com a Tia se aproximando, percebi que as palavras poderiam ser amigas do meu coração e me salvarem do momento angustiante. Escrevi rapidamente. Não sei se a Tia percebeu meu improviso, mas minha mãe chorou comigo quando lemos juntas ao chegar em casa. Até hoje minha mãe guarda essa poesia, acompanhada do desenho do Maik com suas pintinhas, e as inúmeras cartinhas que eu escrevia pra ela. Era só o começo da amizade com as letras...

Ainda hoje escuto minha mãe dizer que muito tenho que agradecer à Tia Ilma, minha primeira professora de redação. Coitada, suportou por anos e anos minhas redações com os personagens dos Cavaleiros do Zodíaco. Era cada nome esquisito em situações corriqueiras, que ela deu graças a Deus sairmos do gênero narrativo para o dissertativo. Um dia ela me disse: "Clarinha, vire o disco.". Respondi: "Tia, gosto desse disco. Deixe ele tocar!". Guardo boa parte delas.

Agradeço o primeiro 'zero' que recebi na vida. Foi em redação quando aluna da D. Silvana. O motivo? Fugi do tema. Na hora achei injusto! Nenhum erro ortográfico e ZERO? Estava ali aprendendo a humildade... Bendito zero! Sou também muito 'agradicida' ao meu querido Marcos Melo. Ele gostava de enxergar nossas entrelinhas quando corrigia nossas redações. Acho que por isso ele me ensinou tanto...

Quanto à minha mãe e sua sugestão de ser colunista, respondo: "Mãe, obrigada por que você sempre gostou de ler minhas aventuras com as palavras. Se eu puder continuar escrevendo colunas em seu coração, estarei feliz por toda a vida!"

Clara Mítia (Sobral, 19 de janeiro de 2013)






sábado, 25 de janeiro de 2014

Em meus contrários

Descobri que Deus gosta de contrários. Eu também.
Gosto da borda da pizza, do sabor escondido na crocância da massa tostada.
Gosto da irreverência da música de Robbie Williams e dos textos de Fabrício Carpinejar. Eles quebram os meus padrões.
Gosto das paredes do meu quarto carimbadas pelas patinhas do Tom em suas rotas de fuga.
Gosto de dançar de olhos fechados.
Gosto de dançar em frente ao espelho.
Gosto quando o amor me expõe ao ridículo, fazendo-me escrever como se já estivesse amando. Mas só se aprende a amar, amando, como que por insistência.
Gosto da sensação do batom vermelho e do cabelo curto.
Gosto da raspa do brigadeiro na panela e de canjica quente. É mais gostoso assim!
Gosto de testar novos caminhos de voltar para casa. A rotina me cansa.
Gosto de experimentar novas rotas e novos sabores. Já comi cuscuz, peixe assado e café com leite ao mesmo tempo. Há dias em que arroz não me entra. Sinto vontade de feijão de corda, queijo coalho e uma fruta preferida.
Já li a Bíblia ao som de Marisa Monte. Amor humano e amor divino em uma única partitura.
Minha rebeldia eu só curo quando escuto Capital Inicial. Há uma certa terapia nas batidas do rock.
Demorei compreender que sou rápida para experimentos científicos e lenta para decifrar as coisas do coração.
Gostei de aprender que a gente só dança direito quando desliga o pensamento e a gente só pensa direito quando liga o mesmo coração...

Clara Mítia (Sobral, 14 de janeiro de 2013)





Amor inútil


Meu amor inútil é coberto de pelos, anda sobre quatro patas e atende pelo nome de Tom. Insistente, pede atenção com um miado que parece de fome, mas não é. Desde pequeno saltita pela casa em uma alegria estranha, carimbando as patas nas paredes e sofás como se dissesse: "Aqui mora gente feliz!".

Como adolescente asneiro, meu amor um dia despertou para para a vida noturna. Eu não queria gatinhos órfãos por aí, era o jeito castrar o único sinal de masculinidade exposta. Um testículo ele mostrou, o outro escondeu. Castrado, fez questão de não não perder os hábitos boêmios. Afinal, 
alguém tinha que me ensinar que não posso ter controle sobre tudo...

Tom bebê

Quanta preguiça! Por vezes, chegando cansado das noites enveredadas, já não sabe se come ou se dorme. Nessas horas meu pequeno apenas deita em frente ao prato de ração e, numa patada certeira, esparrama o conteúdo inteiro no chão só para comer deitado. Vai entender...

É amor e ódio em um único miado. Te odeio quando você some por dias seguidos e retorna magro, carente e faminto. É hora do banho, Whiskas e alívio! Te amo quando te pego no colo, cheirando a shampoo de filhote e a gente deita na rede pra ver a lua. Converso de um lado e você mia do outro, como se a gente se entendesse em alguma linguagem inútil que só compreende os que, de alguma forma, amam...

Clara Mítia escrevendo com o Tom no colo (Sobral, 8 de janeiro de 2013).




Caderno de receitas para 2013

Hoje é dia de traçar minhas metas para o ano que me cumprimenta. Sonhos merecem a casa das palavras para que sejam traduzidos em metas. Sonhos que não são materializados em caneta e papel ficam órfãos. Gosto do poder da palavra, do verbo que se faz carne. É por isso que minhas metas para 2013 serão traçadas em um lindo caderno de receitas, presente de uma amiga de infância. 

Sonhos são como receitas que estão no imaginário. Um teste aqui, outro ali, e anota-se tudo para que não se perca o caminho da felicidade.
Sonhos necessitam de ousadia, da troca de um ingrediente que não agradou, de uma combinação inusitada. Basta um pouco de pimenta no chocolate, um pouco de melado de cana no molho da carne, um crocante no sorvete, um ingrediente do sudeste e outro do nordeste para que a vida exploda em sabores, texturas e tons.
 

Sonhos carecem de mãos que caminham juntas. É preciso ajuda para separar a clara da gema, força masculina pra despolpar o coco, um olhar treinado para escolher o melhor corte de carne.
Sonhos também são como receitas novas. Elas só tem graça se, quando forem degustadas, sentarem-se à mesa aqueles que moram no coração...

E faltando 2 dias pra encerrar o ano, chegou aqui em casa um lindo fogão Brastemp prateado. Presente do meu pai para minha mãe. Para mim, isso já é um belo sinal!

Clara Mítia (Sobral, 02 de janeiro de 2013)





Uma tesoura, por favor!

Nunca desejei tanto que a Terra da Luz e a Terra da Garoa fossem vizinhas...
Assim, poderia eu passear entre essas duas grandezas, entre a Terra onde nasci e a Terra que me fez nascer de novo...
Hoje o que me define já é saudade... Saudade de onde parti e saudade do lugar que vou deixar...
Ah como eu queria, numa brincadeira de criança arteira, recortar esses mapas que teimam em manter-se distantes. 

Assim eu poderia, num gesto egoísta, ter perto de mim tudo o que amo, sem sofrer as ausências, 
sem deixar longe de mim minha nascente e minha foz...

Clara Mítia (São Paulo, 25/11/2012)




O conto da casa da Vovó

A casa da vovó para mim sempre foi um lugar de descanso, de sabores e intimidade. Era lá minha parada quase que obrigatória depois de caminhar de casa para a faculdade. O sol escaldante da Princesa do Norte me lembrava que ali, exatamente no meio do caminho, eu poderia parar, beber uma água, tomar um café e descansar.

A primeira panelada que comi na minha vida foi feita pelas mãos dela. Quem nunca viu o preparo de uma panelada não sabe o que é ter nojo do cheiro e da imagem dos intestinos do pobre animal. Mas minha avó fazia daquilo um ritual. Gastava mais da metade do seu dia limpando, retirando a gordura, aferventando e quando ela criteriosamente achava estar adequado, iniciava o processo de dar sabor.

Tudo o que ela fazia era muito simples. Era um café saboreado com queijo coalho, uma tapioca grossa que se tornava extremamente saborosa quando saboreada com leite Ninho e Nescafé, um doce feito com o bagaço do caju e castanhas que ela mesmo assava. Com a panelada não era diferente. Os temperos eram colorau, cebola, alho e cravo. Ela adorava o sabor de cravo e eu adorava essa impressão digital que me lembrava: “É comida da vovó!”. Temperada, a panelada ficava na geladeira de um dia para o outro, tomando gosto. No dia seguinte, ela ia cedo para o fogão e o cheiro daqueles temperos perfumava a casa, ao ponto de ninguém mais se lembrar que outrora ali estavam vísceras, intestino de animal abatido.

Depois de pronto, o caminho da minha avó era o telefone. Na minha casa, alguém atendia aquela voz: “Alô! É a vovó!”, e o sorriso de quem estava do outro denunciava a felicidade: “Clarinha, fiz panelada! Vem almoçar!”.
Pode ser coisa da minha cabeça, mas acho que a transformação de vísceras em panelada muito me ensina sobre a transformação do amor. Um pouco de zelo, paciência, simplicidade e tudo se transforma...

Comer pra minha avó era um imenso prazer, embora ela já não sentisse o sabor de alguns alimentos, e até os rejeitasse. Mas vê-la machucando o arroz e o feijão de corda sem caldo era quase hipnotizante. De um lado, um pratinho com cheiro verde fresquinho, picado. Do outro, a fruta de sua preferência: manga, caju, melancia ou banana. E ela banhada, com a cabeça cheirando a óleo de bebê, se deleitava degustando aquela simplicidade como se degustasse os manjares do céu. Eu punha meu prato: a panelada, o caldo, um pouco de farinha d’água, arroz e me sentava diante dela só pra observar minha avó se deliciando dos prazeres da simplicidade...
 
Vovó sempre gostava de receber pessoas. Raramente ela dispensava alguém. Por vezes, ela abria a porta para um senhor mendigo e lhe oferecia café. A uma grávida pedinte já a ouvi dizer: “Venha aqui próxima semana que vou fazer umas roupas para o seu neném...”. Mas nada deixava minha avó mais feliz do que a visita de alguém querido. Ela oferecia o que tinha, dava de si, de sua presença. Ultimamente, o peso da idade e suas limitações a deixavam preocupada por demais, meio incomodada com uma visita ao meio-dia, horário em que ela se incomodava em abrir a porta devido a “quentura”. Só quem estava nos bastidores sabia que um simples almoço de domingo, a visita de familiares de longe no final de semana eram motivos para uma ou duas noites de dores de cabeça e tonturas. Ela se queixava daqui, dali, mas a gente sabia que ela estava feliz.

Às vezes julgamos a capacidade de alguém nos amar através do montante de presentes que ganhamos de tal pessoa. Comigo é diferente. Eu me sinto a pessoa mais rica do mundo por carregar comigo tesouros que foram depositados na minha alma...

Intimidade... Era na intimidade desinteressada onde eu ajuntava os tesouros. Eu garimpava nos bons conselhos, nas tantas histórias, nas dores e nos amores. Minha avó me ligava ao meu passado, aos meus antepassados e isso me dizia quem eu era. Ela gostava de cruzar a minha história com a dela, e poucas coisas lhe davam tanto gosto do que uma boa conversa em um fim de tarde qualquer. E como foi bom estar com ela nos bastidores! Lembro das coisas que estavam causando preocupações antes do AVC, da conversa que tivemos em um fim de tarde, acompanhadas de Nescafé, bolacha e a recomendação: “A vovó tá lhe contando, mas não conte pra ninguém, viu?”.

Eu toquei a grandeza do coração dessa grande mulher! Provei do amor e do orgulho com o qual ela falava de cada filho e neto. Isso ninguém me tira, nem as circunstâncias, nem desprazeres. Isso eu carrego comigo, de peito cheio, como se eu tivesse recebido a maior herança deste mundo. Estou ansiosa pra retornar a Sobral, à casa da Vovó. Quero sentar-me perto dela, na cadeira de balanço que ela sabe que eu adoro. Depois do AVC ela não faz mais mais a panelada com gosto de cravo, não lembra mais meu nome, nem me serve mais o Nescafé com tapioca, mas mesmo assim sei que ela ainda vai me dar um pouco dela dizendo: “Oi meu amor! Cadê o namorado? Você vai arrumar um lindo, lindo!”....

Essa é minha maneira de dizer que amo aquela senhorinha de olhos cinza-esverdeados, que tem as veias das mãos protuberantes e um lindo coração. Para ela eu não sou mais a Clara, mas a Maria. Ela é mãe de minha mãe e costuma atender pelo nome de D. Fransquinha. Mas não importa os nomes esquecidos se permanecem os significados...

Clara Mítia (São Paulo, 28 de outubro de 2012).




A colcha e os retalhos


Quem eu sou?
Eu sou uma colcha de retalhos,
Sou formada por tecidos de diferentes idades, texturas, formas e tons.
Sou feita de música de todos os estilos, de sonhos de todas as cores, de livros de tantos autores!
Minhas mãos tocam céus e jardins, alimentos, melodias, às vezes sou vento e calmaria, meus pés caminham em metas ou passos para a dança.
Eu sou clara com meus segredos, também me movimento em ondas e solidão.
Sou prosa, sou poesia,
Pés no chão e asas prontas para voar...

Clara Mítia (São Paulo, 19/09/2012)



Seja bem-vindo!

Esta é minha casa!
Como podes observar, tem uma placa “EM CONSTRUÇÃO”. Há muito tempo está assim! Não costumo fazer exigências. Peço apenas que retire as sandálias dos seus pés, pois minha casa é um lugar sagrado e tem um Dono antes de mim.
Se você não se importar e quiser entrar, seja BEM-VINDO!
 

Talvez as coisas não estejam no lugar onde deveriam e talvez a decoração não lhe agrade, mas é meu lugar. Gosto assim! Sou assim!
Algumas vezes mudei a disposição dos móveis, troquei a tinta das paredes... Por vezes derrubei paredes construídas em lugares errados, por outras, construí muros, não muitos, mas sabendo o que eu estava deixando de fora.
Algumas vezes foi necessário ventilar e iluminar minha casa, daí abri janelas. Precisei também de portas, e ainda preciso... E como são necessárias!  Geralmente deixo-as abertas! Não é necessário assaltar, pular pelo teto, arrombar uma janela, pois a porta estará aberta. Aos cômodos mais íntimos da minha casa só têm acesso pessoas que souberam e que sabem entrar. Alguns, por desrespeito ao meu lugar, ao que sou, foram convidados a se retirar. Quem sabe, um dia não possam entrar novamente, mas do jeito correto...
 

A beleza de minha casa vem da decoração de minha história. Confesso que há objetos de valor, mas há bijuterias e bugigangas também. Há marcas que ainda não consegui reparar, reformas pendentes, janelas quebradas, portas emperradas, rachaduras e infiltrações. Todavia, não deixa de ser um abrigo para mim e para quem por perto passar. Às vezes acho que seja parecida com a casa do meu do meu bisavô, um casarão simples onde os viajantes sempre encontravam uma varanda para descansar e beber um copo d’água e prosear um pouco antes de prosseguir viagem.
 

Geralmente os que chegam à minha casa sempre deixam alguma coisa. Algumas vezes deixam objetos lindos e valiosíssimos, outros, simples lembranças de imenso valor emocional e outros, com olhar crítico, trazem às claras defeitos que meu olho já se acostumara. Infelizmente já sofri alguns furtos... E o que mais me dói é não saber o que fazer diante de quem me roubou: não sei se corro atrás do ladrão para recuperar o que é meu, ou se deixo o pobre infeliz em paz com a desculpa de que talvez ele precise daquele objeto mais do que eu. O que fica nesse caso? O aprendizado! Não são todos que sabem entrar num recinto sagrado...
 

Minha casa não é luxuosa, nem grande, nem está localizada em área nobre da cidade. Aliás, as pessoas mais interessantes que conheço não se localizam em áreas nobres como semideuses, mas nas margens, sedentas de amor, conhecimento, sentido na vida. Essas pessoas, pela experiência da sede, sabem saciar-se e saciar aos muitos que não têm coragem de se aproximar da margem do rio. Foi por isso que construí minha casa às margens de um rio fecundo e de águas caudalosas, o qual gosto de chamá-lo Rio de Água Viva. E que local movimentado! Nunca faltam histórias interessantes para escutar e existem tantas casas semelhantes à minha! Estou em constante aprendizado e sem falar que não corro o risco de morrer de sede, pois o Dono do terreno me disse um dia: “Aquele que beber dessa água jamais terá sede”.
 

Minha casa ainda desfruta de uma vista linda! Ela olha para o Céu. Confesso que às vezes me dá um desânimo ao perceber que muito precisa ser feito para que meu lar se torne um local mais agradável. No entanto, quando o desânimo chega, vou à varanda e observo a vista. Nesse instante lembro que o Dono do terreno alimenta os pássaros e veste os lírios dos campos. Por que não cuidaria de mim? Ele sempre fala de um tesouro que nem a traça nem a ferrugem o consomem. Isso aquieta meu coração...

Este é meu lugar! Se quiseres ficar, prepararei uma refeição e poderemos conversar! Quem sabe, de mãos dadas caminharemos e talvez você me ajude em alguma reforma? Quem sabe você deixe algo que traga mais beleza à minha estante? Quem sabe sejamos vizinhos e eu possa plantar uma rosa em seu quintal?
 

Ouvi dizer que nesse terreno sempre há lugar para mais uma morada. Não é preciso dinheiro, coisas em troca, é preciso apenas querer! Além disso, o Dono do terreno adora preparar banquetes e convida a todos a comerem de um Pão que alimenta a alma.
Onde encontrá-Lo? Fique tranqüilo! É só chamar...



Clara Mítia (Sobral, 03/04/10) 



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