
A casa da vovó para mim sempre foi um lugar de descanso, de sabores e
intimidade. Era lá minha parada quase que obrigatória depois de caminhar
de casa para a faculdade. O sol escaldante da Princesa do Norte me
lembrava que ali, exatamente no meio do caminho, eu poderia parar, beber
uma água, tomar um café e descansar.
A primeira panelada que comi na minha vida foi feita pelas mãos dela.
Quem nunca viu o preparo de uma panelada não sabe o que é ter nojo do
cheiro e da imagem dos intestinos do pobre animal. Mas minha avó fazia
daquilo um ritual. Gastava mais da metade do seu dia limpando, retirando
a gordura, aferventando e quando ela criteriosamente achava estar
adequado, iniciava o processo de dar sabor.
Tudo o que ela
fazia era muito simples. Era um café saboreado com queijo coalho, uma
tapioca grossa que se tornava extremamente saborosa quando saboreada com
leite Ninho e Nescafé, um doce feito com o bagaço do caju e castanhas
que ela mesmo assava. Com a panelada não era diferente. Os temperos eram
colorau, cebola, alho e cravo. Ela adorava o sabor de cravo e eu
adorava essa impressão digital que me lembrava: “É comida da vovó!”.
Temperada, a panelada ficava na geladeira de um dia para o outro,
tomando gosto. No dia seguinte, ela ia cedo para o fogão e o cheiro
daqueles temperos perfumava a casa, ao ponto de ninguém mais se lembrar
que outrora ali estavam vísceras, intestino de animal abatido.
Depois de pronto, o caminho da minha avó era o telefone. Na minha casa,
alguém atendia aquela voz: “Alô! É a vovó!”, e o sorriso de quem estava
do outro denunciava a felicidade: “Clarinha, fiz panelada! Vem
almoçar!”.
Pode ser coisa da minha cabeça, mas acho que a
transformação de vísceras em panelada muito me ensina sobre a
transformação do amor. Um pouco de zelo, paciência, simplicidade e tudo
se transforma...
Comer pra minha avó era um imenso prazer,
embora ela já não sentisse o sabor de alguns alimentos, e até os
rejeitasse. Mas vê-la machucando o arroz e o feijão de corda sem caldo
era quase hipnotizante. De um lado, um pratinho com cheiro verde
fresquinho, picado. Do outro, a fruta de sua preferência: manga, caju,
melancia ou banana. E ela banhada, com a cabeça cheirando a óleo de
bebê, se deleitava degustando aquela simplicidade como se degustasse os
manjares do céu. Eu punha meu prato: a panelada, o caldo, um pouco de
farinha d’água, arroz e me sentava diante dela só pra observar minha avó
se deliciando dos prazeres da simplicidade...
Vovó sempre gostava de
receber pessoas. Raramente ela dispensava alguém. Por vezes, ela abria a
porta para um senhor mendigo e lhe oferecia café. A uma grávida pedinte
já a ouvi dizer: “Venha aqui próxima semana que vou fazer umas
roupas para o seu neném...”. Mas nada deixava minha avó mais feliz do que a
visita de alguém querido. Ela oferecia o que tinha, dava de si, de sua
presença. Ultimamente, o peso da idade e suas limitações a deixavam
preocupada por demais, meio incomodada com uma visita ao meio-dia,
horário em que ela se incomodava em abrir a porta devido a “quentura”.
Só quem estava nos bastidores sabia que um simples almoço de domingo, a
visita de familiares de longe no final de semana eram motivos para uma
ou duas noites de dores de cabeça e tonturas. Ela se queixava daqui,
dali, mas a gente sabia que ela estava feliz.
Às vezes julgamos
a capacidade de alguém nos amar através do montante de presentes que
ganhamos de tal pessoa. Comigo é diferente. Eu me sinto a pessoa mais
rica do mundo por carregar comigo tesouros que foram depositados na
minha alma...
Intimidade... Era na intimidade desinteressada
onde eu ajuntava os tesouros. Eu garimpava nos bons conselhos, nas
tantas histórias, nas dores e nos amores. Minha avó me ligava ao meu
passado, aos meus antepassados e isso me dizia quem eu era. Ela gostava
de cruzar a minha história com a dela, e poucas coisas lhe davam tanto gosto do que uma boa conversa em um fim de tarde qualquer. E como foi bom estar
com ela nos bastidores! Lembro das coisas que estavam causando
preocupações antes do AVC, da conversa que tivemos em um fim de tarde,
acompanhadas de Nescafé, bolacha e a recomendação: “A vovó tá lhe
contando, mas não conte pra ninguém, viu?”.
Eu toquei a
grandeza do coração dessa grande mulher! Provei do amor e do orgulho com o qual
ela falava de cada filho e neto. Isso ninguém me
tira, nem as circunstâncias, nem desprazeres. Isso eu carrego comigo,
de peito cheio, como se eu tivesse recebido a maior herança deste mundo.
Estou ansiosa pra retornar a Sobral, à casa da Vovó. Quero sentar-me
perto dela, na cadeira de balanço que ela sabe que eu adoro. Depois do
AVC ela não faz mais mais a panelada com gosto de cravo, não lembra mais meu nome, nem me serve
mais o Nescafé com tapioca, mas mesmo assim sei que ela ainda vai me dar
um pouco dela dizendo: “Oi meu amor! Cadê o namorado? Você vai arrumar
um lindo, lindo!”....
Essa é minha maneira de dizer que amo
aquela senhorinha de olhos cinza-esverdeados, que tem as veias das mãos
protuberantes e um lindo coração. Para ela eu não sou mais a Clara, mas a
Maria. Ela é mãe de minha mãe e costuma atender pelo nome de D.
Fransquinha. Mas não importa os nomes esquecidos se permanecem os
significados...
Clara Mítia (São Paulo, 28 de outubro de 2012).