Era uma vez
Nós, nossa amiga e sua dor.
Nós, nossa amiga e sua dor.
Lembro-me de todas ali naquele quarto cinza dentro, cinza fora.
Estávamos nubladas.
Nos olhos dela só chovia e em nós, nenhum sorriso fazia sol.
Não sei se ajuda ou se melhora o silêncio forçado nessas horas.
Confesso aqui que tudo o que eu mais queria era juntar-me ao choro
descontrolado e ao emaranhado infinito de perguntas procurando um motivo para
aquela tempestade.
Dor de amigo é dor que vira nossa.
A gente cala e chora também.
E tudo o que tínhamos era nossa amiga envolta em lágrimas,
a lembrança estampada na parede,
o perfume do último presente de aniversário,
as fotos,
os sonhos que seriam concretizados em tempos vindouros.
Seriam...
No céu, nenhum resquício de raios de sol,
em nossas mãos, a sensação impotente de não saber o que falar, o que fazer...
De repente, o convite tímido: "Vamos arrumar o quarto?"
Os olhos sorriram entre si.
Os olhos sorriram entre si.
Guardamos o perfume na gaveta, trocamos a posição das fotos do mural.
Tiramos a poeira das estantes, portas, janelas e molduras.
A nossa amiga levantou-se para a cama ganhar roupa nova.
"Vamos fazer suas unhas!"
Nas gavetas, ajudamos a separar as roupas limpas, as sujas e as
lembranças que apareciam a cada reviravolta.
Pausa para o sorriso, pausa para a lágrima.
Dizem que arrumação de dores começa pela arrumação do quarto...
E foi assim que aquele cabelo cor
de ouro tornou-se o nosso sol naquele dia nublado...
Clara Mítia (Tianguá, 22 de fevereiro de 2014. A todas que estavam lá
naquela manhã nublada, à minha amiga que todos os dias desafia as tempestades com seu cabelo de sol...)

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