terça-feira, 24 de junho de 2014

Um conto para os meus pés



Na minha adolescência, durante um final de semana de praia com os amigos,

vislumbrei-me com um pequeno caminho de água que corria pela areia em direção ao mar.
Juro que pensei ser água limpa pela aparência e ausência de odores. 
Com a ingenuidade de quem ainda não havia aprendido com a vida, 

ousei banhar meus pés no pequeno riacho.
Uma das minhas amigas olhou para trás como quem não entendera o acontecimento. Perguntou-me: 

"Clara, o que você está fazendo?"
Respondi: 

"Olha que bonitinho! Dá pra banhar os pés aqui!"
Assustada, ela disse: 

"Amiga, isso é um esgoto que vem daquelas casas. Você não está vendo? Olha!", 
e apontou-me a nascente do que eu pensava ser água limpa.
Como perdoar os meus pés por aquele engano?
Passei dias sentindo nojo e perguntando-me incessantemente: 

"Por que não olhei mais adiante? Por que não desconfiei dessa água?" 
...
Passou o tempo.
Não são raras as vezes que sinto o mesmo daquele dia, 

quando percebo que nem tudo o que aparentemente corre limpo em direção ao mar, 
é água com espírito de dignidade...

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